ESTÓRIAS...

ESTÓRIAS...

segunda-feira, 29 de julho de 2013

PEQUENA AMOREIRA

Plantei uma árvore na beira do rio. Mais uma árvore para minha coleção. Essa é uma amoreira. Isso me faz lembrar da velha amoreira que tínhamos no quintal de casa. Aquela árvore era mágica. Eu e meus irmãos colhíamos amoras para fazer suco e sorvete. A velha amoreira não existe mais... mas não faz mal, porque ela está bem viva na minha memória. Ela e todas as outras árvores que plantei e com as quais convivi.

Minha pequena amoreira vai crescer e vai dar muitos frutos. Eu já posso vê-los nos meus pensamentos. Frutos suculentos, saborosos e naquela cor escura e forte que a gente chamava de cor de amora. A boca da gente ficava roxa de tanto comer os frutos, demorava um tempão para voltar à cor normal. No dia seguinte a mãe dizia: Nem pense em comer amoras! A teimosia era maior que o medo de levar broncas, e a gente repetia a dose. Não demorava para tomar uns cascudos. Mas tudo era tão bom... e ainda é. Ainda temos mudinhas de amoreira para plantar e replantar, dar e talvez vender.


lita duarte

quinta-feira, 18 de julho de 2013

O TREM JÁ PASSOU

Porque correr tanto, vá devagar e sinta o momento. Eu me lembro de um tempo que já passou.
Era na época  em que o trem fazia parte do cenário da vida de muitas cidades brasileiras. A gente viajava de trem, o tempo não corria tanto e nem o trem, mas havia um certo encanto naquilo tudo. As estações eram sempre muito bem cuidadas, os funcionários bem vestidos em seus uniformes e sempre atenciosos. Havia qualidade nos serviços prestados e era bem seguro viajar de trem. Mas o tempo passou e os trens foram sendo abandonados. Restaram os trens que circulam nas grandes cidades, mas todo mundo sabe que é um serviço ruim e faz parte do transporte público, que é explorado de maneira ineficiente. Existe também o trem de carga, mas é pouco utilizado, porque as ferrovias estão em péssimo estado de conservação. Mas eu queria mesmo era falar do charme e elegância que havia naqueles trens  que transportavam pessoas em curtas ou longas viagens pelo Brasil  afora. Aquilo tudo foi bom enquanto durou, aliás havia muita coisa boa e que funcionava... o que aconteceu e por que tanta coisa se perdeu?

lita duarte


quarta-feira, 10 de julho de 2013

CHIQUITA

Chiquita era uma mulher muito forte e determinada.
Eu gostava muito de ver o jeito dela. Ela tinha muito carinho e cuidado com seus sobrinhos.

Chiquita era viúva e morava coma a mãe e duas irmãs. Ela trabalhava fazendo bolos e salgados para festas.
Quando alguém de sua família fazia aniversário, ela costumava fazer uma festa em sua casa. Era uma tremenda alegria! Além dos bolos e doces deliciosos que ela e suas irmãs preparavam, havia música com violeiros e batuqueiros da região.

Além de festeira, Chiquita também era muito exigente com seus sobrinhos, ela fazia muito esforço para que eles estudassem.
Ela costumava dizer: Eu não quero saber de sobrinho meu, sendo explorado por ninguém. Todos terão que levar os estudos a sério.

E ela pegava mesmo no pé dos meninos, não dava moleza. Ela ia à escola saber como estava sendo o proceder de seus sobrinhos. Se eles estavam tendo dificuldades com alguma matéria e como era o relacionamento deles com os professores e colegas de classe, enfim tudo que envolvia a vida escolar dos meninos.

Algumas pessoas achavam que Chiquita exagerava com tanto zelo com os sobrinhos. Ela não estava nem aí, era bem exigente, e foi isso que fez toda diferença na vida dos sobrinhos de Chiquita.
Na época ela tinha sete sobrinhos, quatro meninas e três meninos.
Todos eles tiveram uma boa formação escolar, e por isso, tiveram oportunidade para se tornarem bons profissionais, cada um na área que escolheu. Hoje em dia, todos são muito agradecidos aquela mulher que era firme com eles, e lembram que ela sempre lhes dizia assim: Sem disciplina e esforço ninguém chega a lugar nenhum.

lita duarte

terça-feira, 2 de julho de 2013

A CASA

O som do silêncio à noite, invadia os cômodos da casa. Sentada na minha cama, rodeada de livros, comecei a  pensar que não faz muito tempo essa casa vivia cheia de gente. Hoje em dia, só os ruídos das madeiras que estão cheias de cupins, além do barulho dos passarinhos que fazem ninhos no teto. Ainda bem que os pequenos voadores habitam este lugar, já os cupins...  preciso tomar coragem para dar um fim neles. Talvez eu chame uma dessas firmas com seus exterminadores de insetos.  Mas tenho medo que ao ser aplicado um veneno para matar os cupins, também acabe por matar os passarinhos. Ah, eu não desejo que meus companheiros desapareçam, eles cantam para mim . Mas como eu ia dizendo, essa casa era cheia de gente. Crianças corriam por todos os lados. Eu posso ouvir aquelas vozes infantis ressoando na minha memória. Onde elas estão?  Seguiram o curso da vida. Foram seguir seus destinos. E o tempo voou, e eu me recuso a sair daqui. Também ela está cheia de sons do passado, que só eu posso ouvir. De vez em quando, aparece alguém me fazendo proposta para que eu venda  minha casa. Eu sei que ela vale uns bons trocados, claro, querem comprar essa casa para derrubá-la e  construir um prédio bem alto com vários apartamentos. Então eu digo um valor exorbitante e os interessados olham para mim e dizem: Dona, essa casa não vale tanto assim! Então eu digo: Não vale para vocês que não viveram aqui! E não sabem do valor que ela tem para mim! E tem mais: nunca vão conseguir derrubá-la. Ela será doada para uma pessoa que vai ter que conservá-la para sempre. Os compradores interessados respondem: A senhora está maluca, ninguém vai querer conservar este imóvel. Daqui a alguns anos, essa casa não existirá mais. Então fico muito brava e digo para essas pessoas irem embora. No fundo, acho que ninguém vai querer conservar coisa alguma. A não ser que este imóvel seja tombado, mas tem tantos imóveis tombados por aí, que estão caindo aos pedaços. Bem, enquanto eu viver, ninguém derruba minha casa. A não ser os cupins.

Dedicado à Dona Catarina

lita duarte