ESTÓRIAS...

ESTÓRIAS...

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

O ETERNO ENCANTO DO MAR

O mar de muitos lugares... Cada paisagem é nova. Cada momento é um presente único.

lita duarte

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

NATURAL...


Quando ela nasceu o dia entristeceu. O sol era intenso, mas a dor de sua mãe era muito grande. A pobre senhora não se sentia capaz de ter uma criança para cuidar. Ela se achava muito velha, muito pobre e muito doente. Ela já tinha muitos filhos, não precisava de mais uma boca pra comer.

A criança nasceu e deu um pouco de trabalho para sua mãe, pois, era uma criança diferente, embora fosse bonita e inteligente, carregava consigo uma estranheza e um dom. Era uma criança que vivia sempre sozinha, não gostava de fazer muitos amigos. Era uma criança que pressentia coisas, era muito sensível. Por ser assim, era tida como esquisita.

A criança cresceu, frequentou escolas, trabalhou, mas esteve sempre distante das pessoas. Quem convivia com ela, sabia que ela era uma pessoa normal, mas quando ela dizia que havia sonhado com alguém e esse alguém tinha morrido, infelizmente isso se confirmava. Muitas vezes ela previa acontecimentos que eram bons ou ruins. Quando lhe perguntavam  como ela fazia aquilo, ela simplesmente dizia: Não sei! Tudo se passa com muita naturalidade para mim, apenas penso, apenas sinto. Não há nada de estranho. O que acho estranho é a confirmação dos fatos, gostaria muito que não fossem verdade, gostaria de errar algumas vezes, mas isso nunca acontece. Por isso, vivo afastada dos outros, basta olhar para alguém  e já "leio" a pessoa. Se isso é um dom... eu preferia não tê-lo.

Vou contar o que aconteceu a pouco tempo atrás. Eu estava pensando em uma pessoa muito querida e que não via há muitos anos. De repente o telefone tocou e era essa pessoa. Ela disse assim: Quanta saudade de você! Eu havia perdido o número do seu telefone, mas esteve aqui em minha casa na semana passada o seu primo. Ele me passou o seu número, então pensei em te ligar e acabei ligando.
São coisas assim. Fatos simples ou complicados como em certa vez em que eu estava passando por uma avenida movimentada e de repente senti que algo me dizia para eu pegar um outro caminho. Fiz isso. Minutos depois houve um tiroteio bem no local em que eu iria passar... fui livrada de um grande mal.

Não existe nada de místico ou mágico nisso tudo. É apenas algo natural que faz parte da vida.

lita duarte

domingo, 13 de janeiro de 2013

O VIAJANTE


Ao partir pela vigésima vez em busca de aventuras, Artur arrumou as malas e não esqueceu o pedaço de cobertor que ele usava quando era criança. Todas às vezes que viajava, levava consigo aquele pedaço de pano velho. Ele dizia que aquele troço velho era uma relíquia. Dessa vez ele iria para o Chile e suas malas estavam repletas de roupas de inverno. Foi nesse momento da arrumação das malas em que ele lembrou o seu passado e o que o levou a gostar tanto de viajar. Ele pensou: Ah, meu avó Joaquim, o Jota como era chamado pelos amigos e familiares, foi meu grande amigo e inspirador. Lembro de nossas conversas quando eu o ajudava na horta de sua casa. Meu avô era um cara incrível que adorava cultivar hortaliças, aquele era um de seus grandes prazeres. Parece que foi ontem... Quando eu era criança e ficava na casa dele, ele me levava para o quintal e dizia: Vamos plantar para colher!  Ali no quintal enorme, preparávamos os canteiros para semear todo tipo de verduras. Era muito bom ouvir meu avô contar suas histórias enquanto cuidávamos da horta. Ele me dizia que viajou muito, antes de se casar com minha avó. Ele conheceu lugares incríveis. Ele me passou esse gosto por viajar e conhecer lugares.

Dessa vez estou indo para um lugar que há muito tempo queria conhecer. O Chile com sua paisagem fora do comum. O deserto mais seco do mundo fica lá, o Atacama. Mal posso esperar para ver aquele espetáculo da natureza. Sei que vai ser uma das viagens mais incríveis da minha vida. Já me preparei e vou ficar por lá pelo menos uns vinte dias. Quando eu voltar eu conto como foi a viagem.

lita duarte

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

O RETORNO


O dia foi intenso, divertido e alegre. A reunião com os amigos na casa da praia foi um momento marcante. Não esperava encontrar tanta gente por lá, pensei que fosse ser um almoço mais familiar. O almoço foi delicioso e regado com muito vinho e música ao vivo. Uma banda tocava blues, bem ao gosto do anfitrião. Foi um dia divertido, pude rever Melissa, conversei com ela por um tempo longo, pude desfazer algum mal-entendido que havia conosco. Foi bom aquele encontro depois de muitos anos. Tive vontade de reatar nosso romance, mas achei melhor ir com calma, afinal de contas fui eu quem deu várias mancadas com ela, fui um tremendo tolo, mas já passou, hoje foi um dia de restauração. Engraçado, eu nem bebi demais, quis curtir muito aqueles momentos com os amigos e alguns familiares. Triste foi voltar para casa sozinho novamente,- aliás ando assim faz um tempão. Na hora  de ir embora, me despedi de todos e parti rumo ao meu abrigo.

Chegando em minha casa, estacionei o carro na garagem do meu prédio, entrei no elevador e desci no meu andar, abri a porta e entrei no meu apartamento. Dentro do apartamento um silêncio absoluto, liguei a TV, ela não funcionou, abri a janela da sala estava escuro lá fora, mas ainda era cedo, não era para estar tão escuro. Abri a porta do meu apartamento, sai no corredor e chamei o elevador, mas ele não chegava nunca. Nesse momento alguém passou por mim no corredor, eu disse boa noite, a pessoa não respondeu, me senti estranho e entrei no meu apartamento, olhei para fora da janela e não vi ninguém e nem ouvi aquele barulho de crianças brincando,- parecia que todo mundo havia sumido. Não havia barulho algum, peguei meu celular e liguei para várias pessoas, mas ninguém atendia, dei vários gritos e bati na parede para ver se havia alguma manifestação de algum vizinho bravo comigo, mas não houve resposta. De repente, tudo ficou escuro, as luzes se apagaram, procurei uma vela, achei, e quando tentei acendê-la ela simplesmente caiu da minha mão. Nesse momento senti um frio, parecia que tudo havia congelado, então abri a porta e sai correndo no escuro para fora do meu apartamento. Por mais que eu corresse, eu não conseguia chegar a nenhum lugar, de repente senti um baque muito forte no peito, então caí no chão.

Acordei em um hospital em uma quarta-feira de maio de 2006, havia uma enfermeira do lado de minha cama  e me olhando. Olhei para ela e perguntei: Moça, o que eu estou fazendo aqui? Ela respondeu: Como o senhor está se sentindo? Eu disse que estava um pouco tonto, então ela disse: Fique calmo, eu vou chamar um médico. Eu insisti e disse: Moça, o que eu estou fazendo aqui? Ela respondeu: Faz dois anos que o senhor está aqui... o senhor estava em coma: Hoje, o senhor retornou.

lita duarte

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

JARDINEIRAS


-Tia Drica, como a senhora consegue manter um jardim tão lindo assim?
-Carol, eu faço aqui no jardim uma extensão da minha vida. O jardim para ficar bonito e harmonioso tem que ser bem cuidado. Mas não foi sempre assim. Eu só comecei a cuidar do meu jardim depois que tive um problema muito sério de saúde.
-Tia Drica, para mim a senhora sempre foi tão saudável. Quando eu era criança, eu sempre via a senhora tão bonita e bem arrumada, tão falante e bem disposta. Parecia que a senhora não tinha problemas.
-É minha querida sobrinha, a boa aparência nem sempre significa ausência de problemas.
-Então me conta como a senhora chegou a esse ponto de ter um envolvimento tão bom com as plantas e ainda ajudar outras pessoas através desse trabalho tão especial.
-Carol, quando eu era bem jovem eu tive envolvimento com drogas, isso consumiu muitos anos de minha vida. Por causa disso, não pude cuidar bem dos meus dois filhos e o meu primeiro casamento acabou. Minha mãe cuidava de meus filhos com a ajuda do meu ex-marido. Eu vivia na casa de meus pais e trabalhava como modelo. Com o tempo passando o meu vício também foi crescendo e eu fui piorando. Ninguém sabia que eu era viciada em drogas a não ser uma amiga, às vezes eu sumia, ia para a casa dessa amiga me drogar e ficava por lá, por uns dias. Foi nessa época que eu tive uma overdose e fui parar no hospital, então minha amiga teve que falar com meus pais. A partir desse episódio o meu tormento começou. Fui internada numa clínica para tratamento, mas o local era horrível parecia um manicômio, quase fiquei louca. Daí por diante foram várias internações e nada de acabar com o vício, até o dia em que conheci uma senhora que fazia visitas na clínica para drogados. Essa senhora era muito calma e firme em suas palavras, ela me perguntou se eu queria ficar bem, respondi que sim. Ela respondeu que o caminho para a cura estava dentro de mim, e só eu poderia encontrá-lo. Fiquei muito contente com aquelas palavras e quis saber se ela fazia algum trabalho no sentido de ajudar as pessoas, ela respondeu que ela era jardineira e que a vida dela era cuidar de plantas, porque sem plantas não há vida. A partir desse dia eu comecei a mudar. Quando sai da clínica fui pra casa, conversei com meus familiares e me propus a tomar um novo rumo na vida. Procurei aquela senhora e fiquei encantada com o local em que ela mantinha um imenso jardim. Ali havia algumas pessoas cuidando do jardim. Fiquei tão entusiasmada que quis começar a trabalhar com ela ali naquele local. A partir desse momento minha vida mudou completamente. O envolvimento que eu tinha com o jardim me ocupava e me fazia ficar melhor, o meu vício desapareceu, o meu prazer estava em cuidar do jardim e de mim. Com o tempo fomos ampliando o jardim e começamos a cultivar uma horta. Depois de um bom tempo de convívio com aquela senhora aprendi que não podemos forçar ninguém a aceitar ajuda, pois cada pessoa tem o seu tempo para despertar. Um dia aquela senhora foi morar no jardim eterno e eu me vi com a responsabilidade de continuar o trabalho que ela havia iniciado.
-Tia Drica, que história fascinante! Gostei muito! E o mais importante de tudo isso, é que a senhora além de cuidar do jardim, também cuida das pessoas. E elas aprendem e passam adiante o teu ensinamento.
-Carol, um dia a gente aprende que sem conexão não há transformação.


Essa história é uma ficção baseada em fatos reais. Para a minha amiga Bete.

lita duarte