ESTÓRIAS...

ESTÓRIAS...

terça-feira, 31 de agosto de 2010

AO SOM DO LED, BASQUETE E BOMBAS DE CHOCOLATE

O Carlão era um menino de dezesseis anos, quando eu o conheci.
Ele jogava basquete e gostava do Led Zepellin.

Quando eu estava no colegial, - era assim que se dizia quando uma pessoa estava no ensino médio em 1975. Bem, nessa época eu conheci o Carlão.
Eu estava tentando fazer umas cestas, jogando basquete com dois meninos mais velhos que eu. Nessa época eu estava com quinze anos e adorava basquete. Era difícil encontrar alguém que jogasse comigo. As meninas não queriam saber de esporte, e quando se interessavam, queriam jogar vôlei.
Jogar com os meninos era complicado, porque eles se achavam os maiorais, eu tinha que me desdobrar ao máximo para ser aceita no jogo. Minha sorte mudou naquele dia. Os meninos estavam me sacaneando. Quando passavam a bola pra mim, jogavam com tanta força para me machucar. De repente, eu ouvi um vozeirão e quando virei para pegar a bola, vi um menino grandão dizendo assim: Dinho, seu mané, passa essa bola pra mim, se passar mal, eu vou distribuir porrada. Entendeu!
Os meninos falaram baixinho: O Carlão voltou, ferrou! Ele estava estudando à noite, já mudou de turno outra vez!
O Carlão se aproximou de mim e disse: Agora o bicho vai pegar! Os meninos riram pensando que o Carlão estava zoando com a minha cara, mas que nada, ele estava mandando um recado que queria dizer que estava do meu lado. Ele me disse: Se liga pequena, vou te passar a bola.
Bem, a partir desse dia eu e Carlão fizemos uma parceria.

O Carlão era um encrenqueiro, ele tinha talento de sobra para o basquete, mas arrumava muita confusão.
A gente se encontrava todos os dias para jogar e conversar. Nas conversas rolavam os maiores planos.
O Carlão dizia que um dia ele iria comprar uma moto pra gente viajar pela América Latina, a gente iria até a Argentina visitar o tio dele. Também iríamos à Londres assistir um show do Led Zepellin.
Pobre Carlão conversava comigo durante horas, me dava dicas de basquete, me ensinava a fazer os passes, quebrava o pau com os meninos por minha causa, mas quando ele entrava na depressão, era uma tristeza.

Certa vez, em uma conversa com o Carlão, eu disse que ele devia procurar um médico, o problema dele devia ter tratamento, mas o Carlão respondia que se ele fosse procurar um médico, o médico iria dizer que ele era um veado, uma bicha e coisas desse tipo. Naquele tempo, infelizmente não se diagnosticava a depressão da maneira como é nos dias de hoje. Antigamente, um homem só procurava um médico, quando já estava muito mal.

Quando o Carlão entrava em crise, ele sumia da escola, perdia os testes em clubes, ficava dias sem ver ninguém. Eu insistia, passava quase todos os dias na casa dele, entrava e batia na porta do quarto que ele mantinha fechada. A mãe dele me dizia que ele nem se alimentava direito. Eu falava pra ela procurar ajuda, mas tudo era tão complicado...
Muitas vezes, eu ficava conversando com o Carlão, ele lá dentro do quarto jogado na cama e eu do lado de fora com as costas na porta. Eu ficava dizendo que ele estava me fazendo falta, eu precisava dele para treinar e para ouvir o Led, porque ouvir o Led só tinha graça com o ele. Às vezes o Carlão me ouvia, então abria a porta do quarto e dizia: Pequena, amanhã nós vamos jogar e depois vamos ouvir o Led, também vamos comprar bombas de chocolate para acompanhar o som. Amanhã, tá bom! Eu respondia que sim, e ia embora.
No dia seguinte o Carlão aparecia, então era a maior festa. Jogávamos e depois íamos comprar as bombas de chocolate e seguíamos para a casa dele, ficávamos na varanda ouvindo o Led e fazendo nossos planos de viagens, enquanto saboreávamos as bombas de chocolate.

Um dia, Carlão entrou numa crise muito brava. Ele havia perdido um tio. Aquilo pesou demais. Carlão se fechou de vez, ninguém conseguia ajudá-lo. Os dias foram passando... Um dia, não aguentei e fui à casa dele e bati naquela porta do quarto dele com tanta força, que machuquei a mão. Eu disse que se ele não abrisse a porta, eu a derrubaria. Ele abriu à porta, então eu gritei com ele, disse que ele estava querendo morrer, falei dos nossos planos, falei que não havia jeito de trazer o tio dele de volta. Falei que não tinha graça nenhuma um homem daquele tamanho deixar uma droga de uma doença tomar conta dele.
O Carlão olhou pra mim e disse assim: Tá bom, pequena, já entendi, vou tomar um banho depois a gente vai comer bomba de chocolate. Muitas! Porque eu tô morrendo de fome.
Aquele foi um dia de vitória, vencemos uma batalha.



lita duarte

sábado, 28 de agosto de 2010

"AOS DOMINGOS..."

Domingo era assim: a mãe levantava cedo e preparava o café. O cheiro do café era muito gostoso e fazia a gente despertar. A mãe sabia das coisas.
Aos poucos, nós íamos saindo da cama. Nós! Eu e meus irmãos. Eu levantava e corria para a cozinha. A mãe dizia para eu ir lavar o rosto e escovar os dentes, depois de olhar para mim, e dizer bom dia com um sorriso muito bonito. Ah, o domingo era só festa!

Eu, a mãe e a Lú, íamos à missa, o pai e os meninos, às vezes iam com a gente, às vezes não, pois saiam cedo para pescar.
Às vezes aos domingos, todos nós saíamos juntos para irmos à casa do tio que morava em uma cidade próxima. A viagem era feita de trem e era uma sensação! Era uma alegria dentro daquele trem. Ah, era outro tempo! Sem tanto consumismo, modismos, extremismos etc. Criança era apenas criança.

Quando ficávamos em casa, eu gostava do ritual da preparação do almoço. A mãe fazia macarrão. Como boa descendente de italianos, ela sabia fazer a massa. Aquele era um momento especial. Eu e a Lú ajudávamos a mãe, enquanto os meninos ralavam o queijo e preparavam saladas. O pai era encarregado de preparar os frangos.
Às vezes, uma de minhas irmãs que já era casada vinha para o almoço, normalmente tínhamos convidados, que na maioria das vezes eram os primos.
O almoço de domingo era cheio de ruídos, risadas, muita conversa e demorava horas para terminar. Era uma reunião em que pairava muita harmonia e bem estar.

O meu pai sempre pedia para o meu irmão colocar umas músicas na vitrola pra gente ouvir, naquele tempo o aparelho de som era vitrola. O meu irmão fazia uma seleção musical que ia de Beatles a Louis Armstrong, mas ele não podia esquecer aquela música que dizia assim: Cuando Calienta el Sol..., porque meu pai adorava aquela música.
Às vezes, meu irmão fingia que havia esquecido a tal música, então meu pai dizia: Caballero! E a minha música? Então meu irmão dava muitas risadas e perguntava qual era a música. Quando meu pai dizia:      Cuando Calienta... todo mundo ria e repetia com ele - Cuando Calienta el Sol!





lita duarte

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

BINA ANDARILHA




Bina era o nome da mulher que andava pelas ruas da cidade. Diziam que ela era louca.
As crianças sentiam por ela um misto de encantamento e medo. Ela era daquelas pessoas que olhava nos os olhos dos outros e dizia: Que é? Você perdeu alguma coisa?
Ninguém nunca foi agredido por ela, mas tinham um receio daquela pessoa franzina e atirada.

Ela morava em uma vila distante, em uma casa de madeira, mas muito limpa. Ao sair andando pelas ruas da velha Monte Sião, sempre tinha um cachorro que lhe acompanhava.
Muitas vezes ela pedia comida na casa dos outros. As pessoas davam, porque no fundo sentiam dó daquela pessoa andarilha.

Certa vez, estava chovendo muito, parecia que o mundo ia desabar, Bina, não conseguiu voltar para sua casa e acabou ficando rondando pela cidade tentando encontrar um abrigo.
Choveu durante toda noite. No dia seguinte quando amanheceu e a cidade voltou à rotina, surgiu um comentário de que a Bina havia aprontado das suas.
Aconteceu o seguinte: O coveiro do cemitério da cidade quando entrou no alojamento onde ficava o caixão dos pobres, tomou o maior susto. Ele viu alguém sair de dentro dele e perguntar assim: E a chuva, já passou? Esse alguém era a Bina. Sabem como é, cidade pequena de antigamente todos ficavam sabendo dos acontecimentos.
E até hoje os antigos moradores da cidade contam essa história.




Contos que passam de pais para os filhos.

lita duarte

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

SEM RASTROS - A mulher indígena


A mulher indígena, naquela noite chorou muito. No dia seguinte resolveu partir carregando seu filho no colo. Há muito tempo que ela vinha sendo maltratada. E depois que ela teve o seu primeiro filho, tudo piorou. Ela tinha muito medo que seu marido fizesse algo de ruim para o bebê. Então após aquela noite, ficou claro o que ela precisava fazer. Ela decidiu fugir com seu filhinho. Ela sabia que não seria fácil, pois fugir daquele homem que lhe maltratava exigia muita coragem e determinação. Mas ela reuniu forças e quando a noite chegou, esperou o seu marido adormecer. Pegou o bebê no colo e partiu para bem longe daquela cidade e do jugo daquele homem perverso.

Caminhou a pé durante a noite toda até chegar à cidade mais próxima. Ela sabia que teria que ficar escondida por algum tempo. Não pensou em desistir. Fincou o pé ali, decidiu que não olharia para trás. O passado estava morto. Agora era só ela e o filho.
Ela sabia que não poderia fraquejar  e não fraquejou. Aquele sangue de índio estava mais vivo do que nunca naquelas veias feminina.

A mulher conseguiu se estabelecer em um local seguro. Arranjou emprego em uma casa  de família, em que ela podia cuidar de seu filho. Felizmente seus patrões eram pessoas de bem e assim ela pode dar uma boa educação para o menino. Esse filho cresceu, estudou muito e formou-se em direito. Hoje em dia, é ele quem cuida de sua mãe.




lita duarte
Foto do livro Crianças Indígenas / Net

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

O PROFESSOR

Quando Laura ia à casa do professor Antunes, para aplicar injeções em sua mãe, eu ia junto com ela.
O professor morava em uma casa bem grande, ele era solteiro e cuidava de sua mãe.
Na casa havia uma linda biblioteca, os livros eram todos bem organizados por nomes. O professor era uma pessoa extremamente organizada. Ele era muito considerado lá na cidade, era um professor querido. Muitas moças morriam de vontade de namorar com ele, até mesmo a Laura. Toda vez que íamos à casa do professor, Laura se arrumava toda, passava perfume e vestia uma roupa bem bonita só porque iria ver o professor. Ele sempre estava em casa no horário em que marcava para Laura aplicar injeções em sua mãe. Ele adorava a mãe, mas ficava muito triste porque ela estava muito doente, diziam que era aquela doença! É, naquela época as pessoas tinham medo de pronunciar a palavra câncer. O professor falava comigo normalmente o que a mãe dele tinha, ele dizia que as pessoas não podiam viver na ignorância. Às vezes, ele falava umas palavras muito difíceis, então eu perguntava para ele o que era aquilo que ele estava falando. Ele costumava dar muitas risadas comigo, porque eu perguntava tudo!
Acho que ele sentia falta de ter filhos, ele era tão sozinho.

Um dia, o professor teve que sair da cidade. Nessa época a mãe dele já havia morrido e Laura já havia se casado com um primo distante.
Diziam que o professor precisava viajar pra longe, porque ele estava sendo perseguido por não concordar com muitas coisas erradas que ocorriam em nosso país.
Eu não entendia nada, mas ouvia o zum-zum-zum. Eu percebia muitas coisas estranhas, mas quando a gente é criança deve ser poupada de assuntos complicados, meus pais tinham muito cuidado em falar certos assuntos na minha frente.

Passaram-se meses e meses. Um dia, o professor voltou, mas já não era o mesmo.
Diziam que ele havia sofrido muito, por isso estava tão diferente. Ele foi ficando cada vez mais isolado e triste, poucas pessoas o visitavam. Aquele foi um período brabo na história, 1968 um ano terrível...

O professor adoeceu, meu pai foi visitá-lo e eu fui junto com ele. Era triste ver aquele homem naquele estado de fragilidade ali, naquela cama. Mas ele ficou feliz em nos ver, lembrou das minhas perguntas e sorriu. Antes de irmos embora, ele me disse para escolher um livro lá na biblioteca. Fui até lá, peguei o livro Guerra e Paz de Leon Tolstoi, ele olhou para mim e falou: Menina, esse livro agora é seu, cuide bem dele, leia com atenção – não agora, quando você for mais velha - sabe de uma coisa, você escolheu um bom livro, faça bom proveito dele.
Eu e meu pai nos despedimos do professor e fomos embora. Não sabíamos que aquela seria a última vez que víamos o professor.

lita duarte

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O PAVÃO ENCANTADO





Quando vi pela primeira vez um pavão fiquei tão encantada que o tempo parou. Por horas fiquei ali olhando para ele.

Num domingo, meu pai me levou ao parque da cidade, ele me disse que iria me mostar uma coisa muito bonita, eu não imaginava que seria aquele encanto de ave chamada pavão.

continua...



lita duarte

sábado, 14 de agosto de 2010

A BRUXA E A BELADONA


Quando eu era criança costumava passar muitas horas brincando no quintal de uma velha senhora conhecida como bruxa. Foi aí que tive uma experiência alucinante com uma planta chamada beladona. Eu estava colhendo flores para enfeitar um móvel da bruxa, quando vi umas flores brancas e enormes nas quais eu ainda não havia reparado. Muito curiosa como sempre, me aproximei do pé de beladona e senti um perfume muito agradável, não deu outra, comecei a apanhar aquelas belas flores cheirosas. Tive uma sensação estranha ao levantar o braço para apanhar uma flor que estava no alto… Senti uma tontura muito forte, mas a sensação era boa. Fui ficando ali apanhando flores e não percebi o tempo passar. Devo ter ficado ali durante muito tempo. Quando percebi estava deitada em cima de muitas flores e a bruxa dizendo meu nome e me chacoalhando para que eu levantasse. Levantei muito zonza e fui com a bruxa lá para dentro de sua casa. Ela fez um café bem forte e me deu para tomar, tomei e fiquei um pouco melhor. Então a bruxa me levou para casa e disse para minha mãe o que havia ocorrido. Minha mãe me mandou tomar banho e depois me deu uma refeição bem reforçada, pois eu estava com muita fome. Ela me disse para não colher beladona, pois a tal planta era muito tóxica, claro, ela me explicou o significado da palavra tóxica. Tudo passou, não tive mal estar durante a noite. No dia seguinte, fui à casa da bruxa, como sempre fazia. Chegando lá, ela me levou para ver o pé de beladona e junto carregou um machado. Quando chegamos perto do pé de beladona à bruxa me disse assim: Filha, eu vou cortar essa planta porque ela é muito perigosa e como você ainda é pequena e teimosa eu sei que, se eu deixar a planta aqui, você vai voltar e mexer nela novamente. E eu não quero que nada de mal te aconteça. Então eu disse para a bruxa: Não! Não corta ela não, nunca mais eu vou mexer nela. Então fomos para outro lado do quintal para colher alfaces.

Passaram-se uns dias. Numa certa manhã em que à bruxa havia saído, coisa que ela raramente fazia, aconteceu que, uns moleques malvados entraram lá no quintal da casa dela para apanhar frutas, só que além de pegar as frutas sem pedir, os tais fizeram uma maldade.Arrancaram todas as flores que ela cultivava,as rosas de várias cores, margaridas, dálias e outras.Os malvados só não arrancaram à beladona .Quando nós vimos o estrago, nós choramos muito, então ela me pegou no colo e me abraçou e disse que eu era a flor mais linda da vida dela.
Nunca mais esqueci aquela velha senhora que era conhecida como bruxa. Ela era conhecida assim, simplesmente porque era uma pessoa que tinha uma aparência com traços muito fortes de sofrimento, e porque gostava de viver isolada sem muito contato com as pessoas. Bem, com certeza ela deveria ter boas razões para isso. A bruxa e a beladona foi um acontecimento grandioso na minha vida.Inesquecível.


lita duarte

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

PASSAGENS... CONTINUAÇÃO

Deus, Deus, Deus... o que seria isso? Um completar de quebra cabeças?
Eu sei, sim, sei que coisas acontecem e que muitas vezes nossa pequena capacidade de compreensão nos leva por caminhos estranhos. Mesmo sendo eu, uma criatura que consegue ler além das palavras e dos silêncios, sim, você sabe bem do que falo, não é senhor comandante do Universo? Ah, acho que já estou falando bobagens.
Mas aquela ventania toda, naquela manhã estranha provou que algo muito inusitado aconteceria.
Sim, eu e os ventos, nós temos intimidades, somos companheiros.
Mas hoje, o sol já brilhou e mais uma voz se calou.


continua...

lita duarte

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

PASSAGENS...


Havia naquele lugar uma passagem aberta que levava para um outro lado do mundo. A mulher que gostava de fitar o céu e o mar, não desistia de procurar encontrar um elo que havia sido perdido. Ela não entendia porque se sentia tentada a voltar sempre naquele mesmo lugar. O que seria aquilo que lhe dava tanta aflição e ao mesmo tempo um certo prazer em poder estar ali.

Não, não volte naquele lugar, implorava uma voz que gritava dentro dela. Mas a criatura era teimosa, por mais compromissos que firmasse consigo mesma; acabava cedendo aos impulsos do coração.
Ah, meu Deus o que o senhor quer de mim? Ela dizia.
O que foi que eu fiz, ou talvez o que foi o que eu não fiz! Alguém responda, sim!
Cadê você agora! Voz que clama dentro de mim. Cadê? Responda?

E assim os dias iam passando, passando sem fim. Sim, porque houve um começo, mas haverá um fim?




continua...

lita duarte

domingo, 8 de agosto de 2010

ÁRVORES




Nas férias de fim de ano de 1970, voltei na minha terra natal, Barretos, e fiquei lá por quase um mês, foi muito divertido aquele final de ano. Lembro que eu e minha amiga Semarú fomos ao sítio da avó dela. Lá tivemos uma aventura com o pé de tamarindo.
Aquela árvore era enorme! Nós subimos nela e ficamos lá em cima por várias horas, lembro que colhemos muitos tamarindos, fizemos suco e sorvete com eles.

Lá em cima do pé de tamarindo havia muitos bichos, o que mais me encantou foi um belo camaleão, ele olhava para mim e eu olhava para ele. Semarú dizia para eu não mexer com ele, porque ele era venenoso, mas eu fiquei ali, naquele contato de olhares, foi um momento inesquecível. Eu pude observar o camaleão se alimentar, ele comia pequenos insetos, mas o que me chamava à atenção, era a sua mudança de cor, aquilo era fascinante.

Eu e Semarú só descemos do pé de tamarindo, porque começou anoitecer, e sua tia Hilda foi nos chamar.
Descemos com cuidado daquela bela árvore, recolhemos os tamarindos e fomos para a casa de dona Inácia, avó de Semarú.

lita duarte

sábado, 7 de agosto de 2010

ELE

Ele era alto, forte (nem magro e nem gordo), cabelos pretos, olhos castanhos claros, que mudavam de cor em alguns momentos, tornavam-se esverdeados.
Ele era uma figura que passava confiança e credibilidade, era um comunicador. Para mim, ele era o meu protetor. Meu pai, um homem que me passou muitas coisas boas.
Uma delas foi o respeito pela Natureza, preciso dizer que ele era neto de Bugre, a avó materna dele, era índia. Eu tenho orgulho em ter sangue indígena.
Ele era um grande contador de estórias, incrível era presenciar ele contando estórias, ele envolvia as pessoas.
Ele foi um homem que viveu de maneira digna, ensinou verdadeiros valores para os filhos. Ele sempre dizia que se quisesse poderia ter se tornado um homem rico, pois em certa altura de sua vida foi oferecido a ele oportunidades, mas ele não quis, porque essas oportunidades envolviam coisas ilícitas. Ele dizia que um homem precisa ter o sono tranqüilo, a hora de dormir é sagrada.
Ele costumava dizer que o maior tesouro de sua vida era sua família. Ele tinha um grande amor por minha mãe, eles eram muito unidos.
Ele foi um homem totalmente dedicado à família. Eu agradeço a Deus por ter nascido da união dele com minha mãe.

lita duarte

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

A MOÇA LOIRA... MUTANTE


Quando eu tinha oito anos de idade, fui apresentada a banda Os Mutantes.
Preciso dizer que eu fui uma criança criada ouvindo muita música. Por ter irmãos mais velhos e que adoravam música, desde muito cedo eu comecei a ouvir muitos estilos diferentes e gostei de todos. Além de pintar e escrever eu também sei cantar, aprendi. Já cantei em Espanhol, Japonês, Inglês e etc.
Bem, voltemos aos Mutantes.

Um dia, no ano de 1968, eu estava na casa da Nice, uma de minhas irmãs, ela ligou a televisão por volta de umas vinte horas, então apareceu na tela uma moça loira de franjinha, ela cantava junto com dois garotos, o Arnaldo e o Sérgio. Eu vibrei ao ouvir aquele som diferente e pensei assim: Ah, eu quero ser como essa cantora, ela é muito engraçada e canta de um jeito diferente. Minha irmã olhou para mim e sorriu.




Na foto: Arnaldo, Rita Lee e Sérgio Dias / Os Mutantes.
lita duarte

O BOSQUE - LEMBRANÇAS

Nele não tem anjo e nem solidão, como naquela canção. Dentro dele mora muita vida! É nele que vou quase todos os dias passear. Vou lá apreciar toda beleza que ele escancara. Árvores e muitas plantas, bichos, muitos bichos, moram naquele lugar encantado. Vou caminhando por aqueles lugares e ouço o canto dos pássaros, o assobio dos macaquinhos, e também ouço os bichos rasteiros; cobras e lagartos também passeiam por lá. O cheiro do Bosque é muito bom, cheira planta, madeira, fruta… cheira verde e renovação.

No bosque tudo é muito harmonioso. Tem até uma deusa, ela é de pedra, mas deusa que é deusa tem que ser de pedra, pois, ela nem sabe que existe. Mas os humanos insistem em adorá-la, e ela nem sabe da existência deles.

Esse bosque existe e resiste, porque muitas pessoas lutaram para que ele permanecesse ali. Interesses imobiliários queriam transformá-lo em um grande condomínio residencial, mas graças à união de pessoas que amam a vida e a natureza, hoje, o bosque continua de pé e preservado, jamais poderá ser destruído. Que assim seja.

lita duarte

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

"PEQUENO MUNDO"


De volta na cidade de São Paulo. Na madrugada no quase silêncio da noite observo a cidade do alto do prédio olhando pela janela. Vejo os carros passando, ninguém andando a pé. Um avião que passa e logo pousará no Congonhas.
Daqui a visão que tenho da rua é fantástica, vejo tudo e ninguém pode me ver, mas quem me veria a essa hora?

Meu companheiro (computador) de batalhas está em cima da cama, estranho como ele é tão necessário e útil, logo mais, os meus pensamentos terei que passar para ele, o edredom é azul claro, hoje está muito frio por aqui. Tenho uma missão importante no dia de hoje, tenho que vasculhar a cidade à procura de antiguidades. Será que vou conseguir encontrar o que me pediram?
Tenho que ir ao centro da cidade, adoro andar naquelas ruas largas e observar toda arquitetura antiga. Essa cidade é mesmo um mundão, lugares tão interessantes, belezas, extravagâncias, exageros, pobrezas, grandezas etc. Logo vai amanhecer, mas o meu olhar quer permanecer aqui diante desse pequeno mundo que vejo dessa janela... pequeno, mas fascinante.

lita duarte

terça-feira, 3 de agosto de 2010

ALEGRIAS DO QUINTAL






Fui uma criança muito feliz. Tive uma infância muito rica, fui criada junto à Natureza, pude ter um íntimo contato com a mãe Terra.
Eu e minhas árvores frutíferas vivíamos em perfeita união.


Hoje, tive à grata satisfação de encontrar jabuticabas na feirinha perto de onde trabalho.
Aquelas frutinhas saborosas, me fizeram voltar lá na infância, lembrei de muitas passagens alegres de minha vida. Algumas ficaram marcadas; quando me lembro dou muitas risadas.

Certa vez, eu e Márcia, uma amiga, fomos até uma chácara com os pais dela. Fomos lá para buscarmos uma tia da Márcia. Chegando lá começamos brincar e correr entre as árvores. De repente, vimos uma jabuticabeira forrada de jabuticabas, ah não deu outra, fomos lá e começamos a saborear as danadinhas. Era tanta jabuticaba, que nós começamos a competir para ver quem comia mais. O resultado foi terrível, ficamos com a barriga tão estufada que não podíamos nem andar direito, no dia seguinte nem fomos à escola. Tivemos que ficar de repouso, e ainda por cima levamos umas broncas.
Eu e Márcia ficamos um longo tempo sem saborear aquelas frutinhas.

lita duarte

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

KISS FROM A ROSE

Em 1995, Alan conheceu a Sheila. Na época eles eram dois adolescentes sonhadores.
Ficaram apaixonados e diziam que viveriam juntos para sempre. Nada e ninguém iria separá-los. Alguns amigos do Alan diziam para ele ter cuidado com a Sheila, porque ela não era muito confiável. Diziam que ela vivia se apaixonando por todo mundo e logo cansava de um e partia para outro. Mas o Alan, com dezesseis anos, não acreditava e continuou junto com a Sheila, ele me disse na ocasião que havia ido ao cinema com ela e viram Batman Forever, a música Kiss From A Rose seria a música da vida deles.

Numa certa manhã, o Alan me procurou para conversar, ele estava muito triste, nessa época eu era muito amiga da mãe dele, por isso ele tinha contato comigo e confiava em dizer coisas de sua vida, na verdade ele gostava de falar, pois o que eu fazia era ouvi-lo.
Ele me disse que a Sheila estava deixando ele muito triste, porque não se interessava mais por ele, e dizia que tudo estava acabado e que era para ele esquecê-la.
Eu disse pra ele não se preocupar, pois se ela queria ir embora que fosse. Que ele devia chorar se estivesse triste, ouvir a tal música e pensar tudo o que ele quisesse pensar, porque por um tempo ele sentiria vontade de ir atrás dela, iria sentir aquelas dores da paixão. Porque só mesmo o tempo para fazer tudo mudar e acalmar.

Outro dia, fiquei sabendo que a Sheila já está no quarto casamento e tem três filhos.
O Alan, ainda não casou, mas tem uma bela namorada e pretende se casar.
Lembrei desse acontecimento justamente por causa da música: Kiss From A Rose / Seal, que ouvi um dia desses quando estava em uma festa de aniversário de casamento.

A vida também é feita de paixões. Quem nunca se apaixonou que atire a primeira rosa.

Os verdadeiros nomes foram trocados. Eu não quero confusão para o meu lado.:)

lita duarte