ESTÓRIAS...

ESTÓRIAS...

quinta-feira, 29 de abril de 2010

A VELHA E EU

Às vezes em nossas vidas encontramos pessoas que nos marcam para sempre. Foi o caso dessa minha amizade com Batista.
Batista era alta e magra e também muito velha. Todos os vizinhos diziam que ela era assustadora. Quando eu a conheci eu estava com seis anos de idade, ela deveria ter uns sessenta e tantos, mas parecia ter muito mais. Ela morava em uma vila de casas iguais, só que a dela era bem grande e ficava no alto separada das demais. O terreno era enorme com muitas plantas e árvores frutíferas. Havia também um galpão enorme onde ela guardava ferramentas e ossos secos.

A vila era fechada com muros e portões. Batista morava lá naquele espaço sozinha. Houve uma época em que ela alugava as casas, mas pouco a pouco todos foram saindo de lá. Batista ficou morando sozinha e esquecida pelos parentes. Na verdade, Batista tinha um sobrinho que lhe fazia visitas de vez em quando.

Bem, lembro que eu fiz amizade com ela porque minha mãe às vezes conversava com Batista, quando ela raramente saia em um dos portões de sua casa. Num dia em que minha mãe conversava com ela e eu estava junto, Batista nos convidou para que entrássemos para conhecermos o local. A partir desse dia eu passei a frequentar sua casa. Dia após dia a nossa amizade foi se fortificando. Algumas pessoas achavam muito estranho eu ter amizade com uma velha, ainda mais aquela em especial que todos tinham medo. Chegavam a dizer para minha mãe não deixar eu ir lá, pois deveria ser perigoso para uma menina. Mas minha mãe sabia que não havia perigo algum, porque Batista era uma pessoa solitária e discriminada por causa de seu passado.

Certa vez, Batista contou para minha mãe que ali naquele local nas décadas de vinte e trinta, existiu um bordel e que ela trabalhou nele. Ela tinha duas irmãs que eram prostitutas, ela tomava conta das crianças, os filhos das moças que trabalhavam lá. Disse também que o sobrinho dela que a visitava de vez em quando, era filho de uma de suas irmãs, e que ele só fazia isso porque ele era o seu único herdeiro.

Bem, eu só sei de uma coisa. Eu e Batista passávamos horas mexendo com as plantas, colhendo frutas e limpando o quintal para fazer canteiros de flores e verduras. Muitas vezes achávamos ossos, mas havia muitos ossos naquele quintal e eram ossos de animais, mas também havia ossos de gente, porque naquele local no passado aconteceram muitas mortes, ou seja, antigamente ali foi um lugar de alta periculosidade. Batista gostava de contar suas histórias, ela sempre me tratou muito bem.

Certo dia, eu fui lá para me despedir dela, pois estava de mudança para outro bairro. Batista ficou muito triste, eu disse que voltaria lá outras vezes. Voltei algumas. Mas aconteceu que um dia eu tive que me mudar para bem longe de lá, para outra cidade. Então o tempo passou e quando eu voltei para visitá-la disseram-me que Batista já havia morrido, fiquei triste, mas também lembrei que por um tempo de nossas vidas nós fomos muito felizes porque tivemos uma verdadeira amizade.

lita duarte

sexta-feira, 16 de abril de 2010

OS PASTÉIS DE SEU ZITO

Zito era o nome do homem que fazia os pastéis mais saborosos da cidade. Ele morava em um sobrado antigo na rua 6, perto da antiga estação de trens. Junto com ele morava sua irmã Zulma. Ela era doceira, fazia encomendas para casamentos.

Os pastéis de seu Zito eram saboreados por todos que viviam ali naquela pequena cidade. As pessoas chegavam lá na casa de Zito e pediam: Zito, quero três pastéis. Ele fritava os pastéis ali, na hora. Era uma sensação muito boa poder ir lá na casa de seu Zito só para comer pastéis. Havia no ar um aroma de ervas frescas e de condimentos variados. Aquele lugar era encantador.

Seu Zito tinha orgulho em dizer que era descendente de Africanos, e que seus avós vieram de Moçambique para o Brasil há muito tempo atrás.

Enquanto fritava os pastéis, seu Zito contava estórias e também cantava músicas antigas de seu povo.
Ele usava roupas brancas e um avental comprido na cor caqui. Ele era muito educado e atencioso, as crianças tinham por ele o maior respeito e os mais velhos tinha por ele muita consideração.
Seu Zito era reconhecido pelo seu trabalho e também por ser um homem de bem.

Bons tempos aqueles.

lita duarte

terça-feira, 13 de abril de 2010

SOFIA

Quem vê Sofia assim, não sabe o que ela causa em mim. Sim, em mim! Euzinho que a vejo todos os dias! Desejo tocá-la com minhas palavras, mas eu…eu. Quem sou eu! Ora, que mania de apresentações. Eu sou um cara qualquer. Um corpo que anda e que sente. Mas preciso dizer que: nesta vida a gente aprende a jogar, ou a gente é jogado de lá para cá. Não, não me digam que sou um cara problemático e esquisito. Sou apenas alguém que teve muitas dificuldades na vida. Então vocês vão dizer: Que novidade! Todos passam por dificuldades. É, concordo.Mas algumas pessoas passaram por uns perrengues na vida, e só elas sabem o que sofreram. Mas eu quero é falar de Sofia.

Sofia, mulher bonita, atraente, mas muito triste. Ah! se eu pudesse entrar naquele espaço que é sua vida. Mas ela é tão distante que eu mal tenho coragem de me aproximar. Ela está sempre com aquele olhar distante, parece que anda nas nuvens. Queria ter coragem e dizer pra ela: Sofia, Sofia! Me leva para o teu mundo. Se é lá na lua, então é pra lua que eu vou.

lita duarte

domingo, 11 de abril de 2010

"A MORTE DOS PEIXES"






Lá na lagoa grande havia peixes pra toda gente que quisesse pescar. Um dia, chegou naquela cidade do Brasil, um rico empresário. Ele gostou muito daquele lugar, então ele pensou em instalar por lá uma empresa de papel. Certamente ele pensou em como ficaria mais rico e como faria aquela cidade prosperar com seu empreendimento.

Os pescadores que viviam muito bem do produto da pesca, juntamente com os demais moradores pensaram que aquela empresa poderia ser de grande importância para a cidade. Pensaram nos empregos que ela ofereceria, e como seria bom ter novos empreendimentos ali.

O tempo passou e a empresa foi instalada. Ia tudo muito bem, todos estavam felizes.
Certo dia, os pescadores não puderam pescar. A lagoa grande estava lotada de peixes mortos. A população ficou apavorada com aquele acontecimento. Todos queriam saber o que havia acontecido.
Infelizmente aquela não seria a única vez de tanta mortandade de peixes na lagoa grande.

O tempo foi passando. Como o tempo é o maior revelador de todas as coisas: foi revelando aos moradores daquela cidade que a empresa de papel era causadora das mortes dos peixes. Ela despejava material químico nas águas da lagoa, assim não havia como os peixes sobreviverem. Era morte certa.

Com o passar dos dias, os moradores foram perdendo em qualidade de vida. Peixes já eram escassos por ali. Mas a empresa de papel ia muito bem e cada vez mais rica. Enquanto a cidade cada vez mais pobre e decadente, pois a maior riqueza do lugar estava sendo degradada por causa de uma empresa de papel.
Ninguém fazia nada para reverter o triste quadro. Os moradores reclamavam, mas ficava tudo na mesma. Os políticos fingiam que estava tudo bem.

Certo dia, apareceu lá na cidade uma jornalista. Ela fez algumas matérias para a TV denunciando o ocorrido. Infelizmente o tema não causou grande repercussão.

Depois de muitos anos e muita degradação, finalmente a empresa instalou equipamentos que evitavam o lançamento de produtos na água que fizessem mal. Infelizmente já era muito tarde, porque muitas espécies de peixes haviam desaparecido daquela lagoa, tentaram introduzir novas espécies mas a lagoa nunca mais foi a mesma.



lita duarte

sexta-feira, 9 de abril de 2010

A CASA ROSA

Aquela casa era cor- de- rosa, era grande e confortável. No seu jardim nasciam rosas amarelas, dálias vermelhas e trevos de flores azuis. Haviam seis crianças que bricavam muito alegres por todos os lugares da casa. Ficavam soltas e tranqüilas no quintal onde passavam longas horas. E tudo parecia muito bom. Era um tempo de ouvir muita música e também cantar. Trabalhar muito, andar e exercitar o corpo para não pensar nas dificuldades… isso era para os adultos. Mas a casa era rosa, e as crianças felizes. Era um tempo de alegrias, tristezas, paixões e amor. O tempo passou… as crianças cresceram e lembram da casa rosa com muita ternura. A casa continua lá, de pé, majestosa e rosa. As paixões passaram, e permaneceu o amor.

Texto escrito em 2005.


lita duarte

segunda-feira, 5 de abril de 2010

MARIA

Em uma manhã triste e chuvosa, Maria chorava a perda do grande amigo.
Maria era só e já não era tão jovem. Então chorava porque achava que a vida havia acabado.
Os dias foram passando. O tempo foi curando tudo, devagar e aos poucos.

Um certo dia, Maria andando pelas ruas de sua cidade encontrou uma menina chorando. Maria perguntou à menina porque ela estava chorando, então a menina respondeu com agressividade dizendo assim: Eu não lhe devo satisfação, vai cuidar da sua vida.
Maria olhou para a menina e não respondeu nada. Foi embora se perguntando: Quem será essa pessoa e porque será que ela é tão agressiva? Ela parece ter uns quinze anos.- Esses jovens são complicados...
Maria olhou para o céu e disse: De hoje em diante eu vou cuidar mais de mim.
As pessoas são muito confusas, e eu fico perdendo o meu tempo querendo mudar o mundo.
Ora, ora, Maria, vai curtir a vida porque o tempo corre, voa, passa e acaba.

lita duarte

quinta-feira, 1 de abril de 2010

OS BRINCOS

Juliana e Camila eram muito amigas. Um dia Camila chegou à casa de Juliana e viu uma caixinha de jóias. Ela perguntou se Juliana tinha alguma jóia de grande valor.
Juliana pegou a caixinha e despejou os objetos que havia lá dentro em cima da mesa.
Havia muita coisa. Brincos, pulseiras, mas nada de grande valor. É o que Juliana pensava...

Camila ficou interessada em uns brincos de argola, eles eram escuros e bonitos.
Juliana vendo o interesse de Camila disse assim: Gostou dos brincos, amiga! Então fique com eles. Esses brincos quem me deu foi um amigo que gostava muito de mim.
Mas eu nunca usei, não gosto dessas argolas. O meu amigo era muito amável, mas eu nunca gostei muito dele. Ele era muito estranho. Eu achava que ele tinha algumas esquisitices, ele quase não falava e às vezes sumia. Um dia, ele chegou com esses brincos e perguntou se eu queria de presente. Eu disse que sim, aceitei para não magoá-lo.
Fique com eles e faça bom proveito, amiga.
Camila pegou os brincos agradeceu e foi embora.

Passaram-se alguns dias, então elas se encontraram novamente. Camila disse assim para a amiga: Juliana, os brincos que você deu pra mim, eu vendi. Menina, eles me renderam uma boa grana. O pai de uma amiga que trabalha com jóias, me ofereceu doze mil reais por eles. Eu vendi, mas depois pensei bem e acho que fiz besteira. Se ele me ofereceu aquele valor é porque os brincos valem muito mais. O que você acha Juliana?
Juliana não respondeu nada. Mas lembrou que seu amigo havia dito pra ela que aqueles brincos pertenceram a sua avó. Ela lembrou que a família de seu amigo era de origem nobre. Eram pessoas que fugiram da segunda guerra mundial de um país europeu.
Juliana ficou chateada e disse para Camila que ela não devia ter vendido os brincos.
Por causa disso, elas romperam à amizade.

Juliana dizia que Camila não valorizou o que ganhou. Camila dizia que Juliana menosprezou o presente do amigo. E que só foi dar conta do valor do presente depois que perdeu.
Ambas deixaram que algo ruim interferisse numa grande amizade.
Tudo ficou diferente. Elas nunca mais foram amigas.


lita duarte