ESTÓRIAS...

ESTÓRIAS...

quarta-feira, 31 de março de 2010

O TRAVESSEIRO

A pequena Alice, certo dia subiu na cama de sua mãe e começou a pular. Depois, cansada deitou-se na cama e pôs a cabeça em cima de um travesseiro de penas de ganso. A mãe de Alice tinha muito cuidado com aquele travesseiro, pois ele era especial. Pois bem, Alice pegou o travesseiro e começou a jogá-lo para cima, depois bateu no travesseiro até que percebeu que de dentro dele saía num pequeno furo uma peninha. Isso foi o suficiente para que Alice tentasse abrir o travesseiro para ver o que havia lá dentro. E foi o que aconteceu. Alice abriu o travesseiro. Ela mexeu e remexeu nele que aconteceu das penas saírem por um buraco imenso que ela conseguiu fazer. Foi pena para todos os lados. Mas de repente dona Marina a mãe de Alice chegou ali no quarto e ficou olhando a proeza de sua filha. Quando Alice percebeu que sua mãe estava ali, ficou toda encabulada. Então, dona Marina falou para Alice que ela estava fazendo um estrago muito grande, que aquilo não podia ser feito. Alice disse para sua mãe que iria juntar tudo e pediria para Inês, sua tia costurar o travesseiro. Mas dona Marina disse assim para a menina: Alice, como nós vamos juntar todas as peninhas que voaram pela janela. Mesmo que você junte todas estas que ficaram no quarto e se nós colocarmos dentro do tecido, nunca mais será o mesmo travesseiro. Sabe por quê? Porque você espalhou penas para todos os lados que foram voando para outros lugares. Não dá para fazer o mesmo travesseiro, sempre ficará faltando àquelas peninhas que foram embora.


É assim mesmo, às vezes os estragos são reparados, mas sempre ficará faltando alguma coisa que se perdeu.

lita duarte

UM CERTO ESCRITOR ANGOLANO


Em 2006, na FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty), o escritor angolano Ondjaki esteve presente, infelizmente eu não estava lá.
Eu nem conhecia o trabalho de Ondjaki, mas fiquei conhecendo através das entrevistas que ele concedeu para várias emissoras de tv.
Eu acompanhei os acontecimentos da FLIP via Internet.

Um certo dia, eu estava assistindo tv, então mudando de canal acabei por botar no canal Futura que eu gosto muito. Tinha uma repórter entrevistando um escritor, então fiquei prestando atenção e gostei muito dessa entrevista. Era o Ondjaki falando de uma maneira tão solta, firme, mas com muita suavidade sobre vários assuntos.
A partir desse dia eu comecei a procurar material sobre ele. Li várias entrevistas em vários blogs. Então, me despertou algo... lembrei da minha infância e dos meus amigos angolanos de quando eu morava no interior de São Paulo. Aquele tempo foi um tempo único e fora do normal. Eu amava aquelas pessoas, pois elas eram muito alegres... era só alegria!

Ondjaki é assim: faz a gente voltar lá nos tempos de infância.
Lendo os livros, as poesias, vendo seu trabalho no cinema, foi me despertando muito interesse por tudo o que ele faz.

Graças a ele comecei a procurar blogs angolanos. Passei por alguns blogs interessantes como: A Minha Sanzala do JotaCê Carranca e o Attelier dos Mangueirinhas do Ngoi Salucombo Jr.,de quem me tornei amiga, e assim trocamos muitas informações sobre Brasil e Angola. Preciso dizer que, antes de chegar nesses dois blogs, passei pelo blog Floresta do Sul do António Manuel Venda, e foi através do blog dele que cheguei aos outros.

Estou relatando tudo isso, porque para mim, foi muito importante esse acontecimento. É como uma viagem boa e agradável. Estou sendo breve, porque se eu fosse contar tudo; daria um livro.

Texto escrito em 2007.

Foto tirada na FLIP de 2009 - ocasião em que tive o prazer de conhecer Ondjaki pessoalmente.


lita duarte

terça-feira, 30 de março de 2010

LEMBRANÇAS





Quando voltei lá na minha terra, foi como se eu voltasse no tempo.
Encontrei pessoas que há muito tempo não via. Foi uma experiência e tanto.
Vi a casa em que eu nasci. Encontrei pessoas que sabiam da minha história de nascimento, de como eu nasci pequenina: uma “sobrevivente”. Diziam: menina, como você chorava, e agora, olha você aqui!

Andei por vários lugares, precisava encontrar o rio grande. O rio que ficou preso na minha imaginação. Quando dei de cara com ele foi pura emoção.
Senti o cheiro bom da saudade de tempos felizes. Aquelas águas eram e são muito especiais para mim.

As ruas de terra vermelha, o cheiro da terra molhada, aquele bairro em que eu morei quando tinha oito anos. O bairro mudou pouco, mas as ruas já não são de terra, foram pavimentadas com asfalto. Encontrei terra vermelha e húmida no caminho da antiga charqueada. Mas a charqueada está toda reformada, tem um novo visual.


lita duarte

O SENHOR JACÓ

Jacó, era um homem muito só, mas ele gostava de ser só. Ele tinha poucos amigos, na verdade o único amigo que ele tinha era um gato amarelo. Ele tinha o hábito de afastar as pessoas de seu convívio, diziam que ele era um homem muito estranho. Diziam que ele ficou assim depois de ter perdido um grande amigo em um acidente de barco em uma represa. Eu só sei que por um acaso um dia eu o conheci. Não demorou muito tempo para que eu e ele nos entendessemos. Foi assim que aconteceu.


Um certo dia do mês de maio, eu e meus amigos estávamos jogando bola na rua de casa. Isso foi há muito tempo. Sabem, aquele tempo em que as crianças podiam brincar sossegadas nas ruas próximas de suas casas e que nem existia televisão, só rádio. É, foi nesse tempo aí. Bem, estávamos jogando bola quando de repente eu chutei a bola e a bendita caiu no quintal da casa do seu Jacó. Ah, esqueci de dizer: todas às vezes que caía uma bola no quintal dele ele pegava a bola e guardava, não entregava pra ninguém. Também só de pensar em pedir para que ele entregasse a bola; as crianças tremiam de medo e desistiam. Eu fiquei com medo de ir pedir a bola pra ele, mas pensei: vou arriscar. E foi o que eu fiz. Bati palmas no portão, de repente vi uma figura alta e magra vindo em minha direção. Era ele, sr. Jacó. Chegou no portão e perguntou o que eu queria. Então respondi que se ele poderia por favor pegar a bola que caíra ali no seu quintal. Ele olhou me nos olhos e perguntou o meu nome. Respondi que era Otávio. Ele me disse para esperar um pouco foi lá onde a bola estava, então ele a pegou e entregou para mim. Eu agradeci e quando virei para ir embora ele me perguntou se eu gostava de ler; respondi que sim. Ele me disse que se eu quisesse um dia poderia passar lá na casa dele para ele me mostrar sua biblioteca. Eu disse que iria lá qualquer dia. Fui embora sem entender nada. Porque aquele homem me tratou bem, já que diziam tantas coisas ruins sobre ele. Cheio de curiosidades sobre o sr. Jacó, passei na igreja para perguntar para o padre João, porque o sr. Jacó era tratado como esquisito. O padre me disse que, em certos lugares uma pessoa fica falada simplesmente porque prefere viver isolada, então o povo cria estórias segundo as suas fantasias.


Um certo dia, fui visitar o sr. Jacó, ele me recebeu muito bem e me mostrou um montão de livros, fiquei tão encantando que não parei mais de ler. E o mais importante é que eu e o sr. Jacó ficamos grandes amigos.

lita duarte

O PEQUENO DÉ

O pequeno Dé, menino de sete anos de idade e morador da baixada fluminense, levanta cedo, bem de madrugada para pegar o trem junto com sua mãe. Os dois vão para um bairro da zona sul do Rio. Enquanto sua mãe faz faxina em uma casa, ele vende balas de coco. Ele fica o dia todo sentado na rua com o cesto de balas. Às vezes ele não vende todas as balas, então fica irritado.
Pobre Dé, tão pequeno! Tão frágil! Ele precisa ir para a escola, mas tem que ajudar sua mãe.
De tarde sua mãe o encontra, então ele passa o dinheiro da venda das balas pra ela e vão embora.
No dia seguinte tudo se repete.

lita duarte

O NOME DA DOR

Deitado sobre o tapete amarelo o pobre homem gemia de dor. Tentava descobrir o que lhe teria feito mal. Seria o churrasco traçado no bar da esquina. Não! A carne parecia fresca... Carne fresca é uma coisa! Saborosa! Se for degustada com uma cachacinha, que delícia!
De repente ele sentiu uma fisgada no estômago e gritou: Ai! Um homem não pode comer o que quer! Estômago pare de doer. Hoje tenho que sair com o chato do Jurandir. Tenho que resolver umas questões chatas de aluguel atrasado. Pô, todo mês e a mesma coisa, o cara esquece, então tenho que fazer o fulano lembrar. Já sei porque estou com essa dor... Jurandir é o nome da dor.

lita duarte

A ENCANTADORA DE ABELHAS

Benedita Maria de Jesus era o nome de uma mulher muito interessante. Ela era uma pessoa muito especial, tinha um dom para lidar com bichos. De gente… ela mantinha uma certa distância. Ela era muito desconfiada. Também por tudo o que ela sofreu, não podia ser diferente. Mas vou dizer da grande e maravilhosa habilidade que ela tinha em lidar com as abelhas.

Num sítio lá no sul de Minas Gerais, Benedita cuidava de abelhas. Ela era uma mulher de uns quarenta anos de idade, mais ou menos. Era casada e tinha seis filhos. Era alta e magra, e muito séria e responsável. Cuidar das abelhas era uma atividade que lhe dava um enorme prazer.
Interessante é que Benedita não usava roupas especiais e nem fumaça para cuidar das abelhas. Mas quem a ajudava nessa tarefa tinha que vestir uma roupa especial para não ser ferroado por elas.
Benedita recolhia o mel das abelhas e mandava o seu filho de nome João, ir vender o mel lá no centro da cidade. O João era um adolescente de quinze anos de idade. Ele levava os favos de mel e costumava vender todos… o que sobrava, quando sobrava, ele os saboreava ali mesmo no centro da cidade, geralmente sentado nas escadarias da igreja Matriz. O dinheiro ele levava para casa e entregava para a sua mãe, esse dinheiro era usado para comprar querosene, sal e açúcar. Eram outros tempos aqueles. Tempos de outras necessidades. Outros valores. Mas o amor a terra, as plantas, aos animais era algo muito forte. Benedita passou isso para seus filhos. Principalmente para João, que era muito apegado à sua mãe e era o que mais a ajudava nas tarefas diárias com as abelhas.
João contava que sua mãe não deixava ninguém matar abelhas… Ela dizia que as abelhas eram sagradas…Assim como as plantas, as águas e todos os bichos.
Benedita era uma pessoa que tinha uma ligação muito forte com a natureza, ela sabia ouvir e respeitar as mensagens enviadas por ela. Mesmo quando não estava na lida, quando sentava embaixo de um pé de árvore para conversar um pouco com alguém, era comum a presença das abelhas à sua volta.
Benedita “encantava as abelhas”, porque ela era encantada por natureza.
Benedita e seu filho João, já não habitam mais esse planeta, foram morar no céu já faz muito tempo. Mas o exemplo de amor e respeito que eles deixaram pode ser seguido hoje e sempre.

lita duarte

O GATO FUJÃO

A casa ficou vazia com a fuga do gato preto.
Todos os dias eu acordava bem cedo e ia fazer café.
Aquele bichano já estava de pé, e ficava roçando em minhas pernas e lambendo os meus pés.
Por que será que ele fugiu?
Eu não sei! Só sei que agora estou só.
Bichinho danado, me fez ficar apegada a ele e, então sumiu no mundo.
Ah, isso não se faz! Ele estava comigo havia dois anos.
Será que ele foi atrás de alguma gata?
Pode ser!
Quem sabe ele volta…Vou esperar.

lita duarte

RACHADURAS NA PAREDE

A casa da rua vinte era muito antiga. Era um sobrado que todos diziam que era assombrado. Mas quem morava lá, afirmava que não era não. Sabe como é, o povo inventa umas estórias que vão se espalhando.
Mas o fato é que naquela casa em 1920, morava uma família constituída de pai mãe e dois filhos. Dizem que um dia, num ataque de fúria o pai envenenou os filhos e a esposa, depois entrou em seu carro que era um Ford preto, saiu dirigindo alucinado e acabou se jogando dentro do rio que passava pela cidade, ninguém sabe porque ele fez aquilo.

A casa ficou fechada por muitos anos, até que em 1958, foi vendida para uma família de italianos. A casa foi reformada e a família se mudou para lá. Só que não parou muito tempo, pois a casa vivia apresentando rachaduras nas paredes. Por mais que fossem reformadas as paredes, as rachaduras sempre voltavam.
Enfim, a casa foi vendida várias vezes, pois ninguém conseguia ficar lá por muito tempo.

Certo dia, um senhor querendo comprar um terreno para abrir um negócio, passou na frente da casa e gostou muito do lugar. Então ele procurou saber de quem era aquele imóvel que já fazia muito tempo que estava ali para ser vendido. Conclusão, ele comprou o terreno e derrubou o sobrado, construiu um estacionamento para carros, e o negócio está indo de vento em polpa, rachaduras em paredes não existem lá. Só que todos os dias à tardinha, pessoas que moram próximas ao estacionamento quando olham em sua direção dizem avistar um Ford preto muito antigo, já perguntaram ao dono do estacionamento de quem é aquele carro, mas ele diz que nunca viu o tal Ford preto antigo.

lita duarte

O RIO GRANDE


O rio das alegrias, das saudades, da magia...
Ele está lá longe! Eu estou aqui.

sábado, 27 de março de 2010

MARIA BILIA E JOÃO GRANDÃO

Meus amiguinhos, Maria Bilia e João Grandão têm tantas estórias juntos, que se eu contar, não paro mais!
E é isso mesmo que eu vou fazer... então lá vai!
Ah! Tenho que dizer que essa estória aconteceu lá nos idos de 1939. É, faz um tempão!
E foi na cidade de Monte Sião, lá em Minas Gerais.

Maria Bilia, uma mulher muito bonitinha, e João Grandão, seu marido muito fortão, tinham um bebezinho lindinho.
Certa noite o bebezinho começou a chorar muito e também estava com febre. A Maria Bilia muito preocupada acordou o João Grandão e disse:
- João Grandão, o bebê está com febre e não pára de chorar. Vamos até o farmacêutico, para ver se ele pode nos ajudar.
Naquela época só havia um farmacêutico que tratava dos doentes da cidade; ele tinha formação acadêmica, então podia receitar remédios para a população, e ele também era o prefeito da bonita Monte Sião.
Bem, o João Grandão, mais que depressa pulou da cama e disse:
-Sim, minha querida Bilia, vamos levar o bebê para o farmacêutico ver.

Então, eles se arrumaram e partiram para o centro da cidade, pois eles moravam um pouco longe do centro da cidade de Monte Sião, onde o farmacêutico, que também era prefeito, morava.

Pelo caminho afora eles iam andando, mas estava tudo muito escuro. Dona Lua nem queria saber de dar as caras.

No caminho eles tinham que passar perto de um matadouro - aquele lugar onde matavam, e ainda matam os bois.
Mas estava muito escuro e só dava para ouvir as corujas e os outros bichos noturnos. De repente eles ouviram um barulho muito forte, mas muito forte, mesmo!
Sabem de uma coisa? Eles ficaram com muito medo. Parecia um trovão! Uma coisa louca!
Eles começaram a correr. Correram tanto que finalmente chegaram no centro da cidade, e foram direto para a casa do farmacêutico, que também era o prefeito.
Chegando lá bateram na porta.
Passou um tempinho e uma senhorinha atendeu. Eles disseram que o bebê estava doente e precisavam ver o farmacêutico.
A senhorinha olhou para eles e disse:
-Só o bebê está doente? Porque vocês... estão com umas caras!
Então eles disseram o que tinha acontecido no caminho.
Nisso, o farmacêutico acordou e foi ver o que estava acontecendo.
Eles disseram que o bebê precisava de cuidados. O farmacêutico examinou o bebê, e receitou para o pequeno remédios à base de óleos.
Ele disse que o bebê estava com muitos gases.
Então o João Grandão falou para o farmacêutico:
-Senhor, será que podemos ficar aqui até o dia amanhecer?
Ele respondeu que sim, mas quis saber o porque. Então o João Grandão explicou o que havia acontecido no caminho, antes de chegarem ali.
O farmacêutico, que também era o prefeito, disse dando muitas risadas:
-Ah! Isso só pode ser aquele touro enfezado, o Adamastor!
Ele deve ter escapado do lugar onde fica preso, e foi bater nas portas de aço com aquelas patas potentes que só ele tem.
Então todos deram muitas risadas.
Maria Bilia disse:
-Ufa! ainda bem que ele não conseguiu sair de lá de dentro. Imagina só o que ele poderia fazer!
Nesse momento o farmacêutico que era prefeito - Ah! lembrei agora! - ele também era o dono do matadouro - ficou pensativo e coçou a cabeça.
Então João Grandão falou:
-É preciso tomar conta daquele touro, senão alguém vai fazer churrasco com ele.
Nessa hora ninguém riu!
Mas o bebê soltou um pum, que inundou o ambiente com um cheiro insuportável! Aí, todo mundo caiu na gargalhada...

O farmacêutico, que era prefeito e dono do matadouro, falou:
-Amanhã, vou tomar providências para que o Adamastor fique sempre preso no local dele. E que fiquem de olho nele para que o danado não fuja mais.

O dia foi clareando e de repente... amanheceu! Era hora de partir. Então, Maria Bilia e Jão Grandão se despediram do farmacêutico, que era prefeito e dono do matadouro, e foram embora.
Maria Bilia, com o bebê no colo, e João Grandão, com o pacote de remédios, partiram para casa. No caminho eles iam conversando e dando muitas risadas, lembrando dos acontecimentos da noite passada...


Fim

lita duarte

"ELAS SÃO MINHAS"




Da minha janela vejo as montanhas. Elas são minhas companheiras.
Escrevendo ou pintando tenho minhas amigas sempre me olhando.

lita duarte

O FURO NO TETO DE MADEIRA

Como chovia naquele janeiro. Cheguei à fabulosa São Paulo, debaixo de água.
Fui para o Flat, queria chegar logo e tomar um banho e me jogar na cama com meu companheiro de guerra: meu computador, amigo inseparável. Queria começar a escrever a estória encomendada por um grande amigo. Mas que nada. Aconteceram coisas muito estranhas.

O Flat, que simpático. Fiquei no último andar, cobertura duplex, espaço à vontade, paredes brancas, sala e quarto amplos, uma escada preta em forma de serpente, uma vista maravilhosa.

A cama espaçosa, ideal para eu me esparramar com meu companheiro.
Depois do banho me joguei na cama nu e feliz, finalmente poderia gozar de momentos prazerosos e muito só, assim como gosto de ser. Ouvindo os ruídos dos carros, dos aviões e do vento.

Jogado sobre um edredom branco e perfumado fechei os olhos e não pensei em nada, adormeci. Na madrugada o frio entrava pela porta da varanda que eu havia deixado aberta. Levantei, fechei a porta deitei na cama e olhei para o teto, então reparei que era um belo teto de madeira, fiquei olhando para ele sem pensar em nada, de repente percebi que havia um furo nele, olhei bem e pensei: pra que esse furo no teto.
Minha imaginação voou, comecei a pensar em mil coisas...

No dia seguinte sai bem cedo para sentir a cidade, caminhei por suas avenidas largas e congestionadas de carros. Entrei num mercado e comprei leite, pão e café. Ah, café não podia faltar para quem iria varar madrugadas escrevendo em companhia daquele furo no teto.
Ele não me saia da cabeça. Sou viciado em café, ainda bem que não fumo. O furo no teto. Ainda subiria lá no alto para ver o que havia por lá.

Os dias foram passando, fui me envolvendo com a cidade e a escrita do livro. Certa noite, numa madrugada chuvosa eu estava na fúria de escrever, mas o furo... Olhei para ele e ele olhou para mim. Cismei e fui lá ver o que é que havia no alto. Havia uma salinha, a porta estava aberta entrei. Então escutei um miado, olhei do lado e vi um gato rajado de cinza e preto. O danado se esfregava nas minhas pernas, me abaixei e peguei o bichano no colo. Levei-o comigo para o apartamento e chegando lá ofereci a ele um pouco de leite.
O danado tomou todo o leite, devia estar com muita fome. Depois subiu a escada e foi parar no meu quarto, parecia que ele procurava alguma coisa. De repente ele olhou para o teto e miou. Fiquei arrepiado, pensei: que gato é esse, miando para o teto. Depois disso ele saiu correndo foi parar na porta de entrada da minha sala, parecia que precisava ir embora com urgência. Eu, mais que depressa abri a porta para o gato sair.

O furo já estava me dando nos nervos, então assim que um novo dia nasceu eu voltei lá em cima para ver ver o que havia por lá. Fiquei surpreso com o que vi. Era uma cena muito linda, o gato rajado de cinza e preto não era gato e sim uma gata. Ela estava deitada e amamentava três gatinhos. Agora entendo porque ela quis sair bem rápido do meu apartamento, estava na hora dela dar cria.

Aquele furo no teto de madeira me mostrou uma cena inesquecível. Mas mandei um carpinteiro reformar o teto, não queria ter surpresas e precisava me concentrar no livro do meu amigo.
Escrevi o livro, mas meu amigo deixou na gaveta, acho que ele não gostou do nome e nem da estória: Gata em teto de madeira.


lita duarte